quarta-feira, 19 de maio de 2010

(2010/144) Ser quem se é


1. Desarmar-se. Acreditar na possibilidade de agir sem armas, na nudez de coração, na transparência de ser quem se é. Não, ainda não são dias de jogarmos fora os escudos. Mas as espadas, as lanças, os punhais, derretê-los ao fogo, e fazer do ferro líquido um molde de peso de papéis finos, com os quais façamos pipas e as soltemos, ao vento do outono. Desarmar-se.

2. Para desarmarmo-nos, antes de tudo, temos de decidir abrir mão das estratégias políticas, dos ataques e dos medos. Há muita necessidade de confiança no Mistério, então. Porque, quando você se desarma, e abre mão das estratégias, as coisas podem e não podem acontecer. Você não faz contas, não mexe pauzinhos, você corre riscos. Assim, é preciso coragem, mansidão, determinação para... desarmar-se.

3. Porque estar armado produz a falsa sensação de estar protegido. Tolice. Estar armado só faz de você uma pessoa pronta para derramar sangue. Desarmar-se deixa você sob a exigência de apenas deixar a vida correr, numa confiança silenciosa. E confiança silenciosa é rara, é cara, em dias de espiritualidades ruidosas, estrepitosas, radiofônicas, alucinadas. Mas bom é ter esperança, e aguardar em silêncio a salvação do Senhor (Lm 3,26).

4. Desarmar-se é poder ser quem se é, sem máscaras. É poder dizer o que se pensa, na sinceridade das palavras honestas, ainda que estranhas, ainda que causadoras de perplexidade aos que vivem armados, com medo, cientes dos riscos do jogo de viver-se armado. Mas não é possível que se viva livre, se você tem coldre e cartucho. A liberdade, nesse caso, é poder caminhar com os mesmos pés em cada lugar onde você está, é poder escrever a mesma coisa em qualquer lugar, sem compartimentos, sem reservas, na transparência das coisas translúcidas, sem medo de ter dito, sem medo do que vão pensar... Quem tem medo, arma-se. Quem se arma, recrudesce o medo. Recrudescido o medo, aumenta-se o calibre da bala... O círculo é viciado em craque.

5. Não se enganem. As palavras que emprego são palavras que nascem na carne, como a transpiração. Nem todas fazem parte dos jargões evangélicos da moda - algumas, são transgressoras. Entregar-se a jargões é entregar-se às ondas, é ser arrastado pelo vagalhão da impessoalidade desumanizante. Você diz as coisas-jargões, e você nem existe, porque são os jargões na sua boca. Prefiro dizer as coisas que sinto, ainda que enviezadas, e, assim, inspirar a alteridade, a autonomia, a subjetividade ativa, consciente, programática, a consciência de si, o ser quem sem é. Eu sei, assusta a alguns, porque revela o quanto estamos encaixados em esquemas de ser, de fazer, de dizer. Mas não há esquemas. Há a vida. Há o risco de viver. O risco de ser. O risco de fazer. O risco de dizer. Há o risco. O que me lembra a infância, quando as melhores brincadeiras eram aquelas mais arriscadas, aquelas que nos deixavam o coração à boca, o peito a explodir. Com cuja lembraça me convenço de que nossa religião ficou velha, nossos homens religiosos, velhos, nossos costumes, velhos, e eu uso a palavra velho aqui em seu sentido mais pervertido. É preciso rejuvenescer. Velhos, grisalhos, mas rejuvenescidos. Centenares, mas rejuvenescidos. Vestidos, que cabe à moda, naturalmente, mas nus.



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

15 comentários:

  1. Várias coisas aconteceram essa semana, aqui apenas me coloco a questionar, cá com meus botões: quão tênue é a linha que estipula a diferença existente entre "Atos Gerais" e "Atos Institucionais"?

    ps.1 - o que diriam os "milicos" entre 64-85?
    ps.2 - o que diriam os "estudantes" entre 64-85?

    Cecília Meireles balbuciou "Palavras! Ai, palavras! Que estranha força a vossa!"

    Aqui brinco com os termos teológicos. " Hermenêutica. Ah... hermenêutica, que bagunça apronta entre os homens.

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  2. Thiago, falamos de coisas diferentes, não? Você fala do quê?, dos processos relacionados à disciplina no internato? Se sim, pesada a analogia, não? Meu post não trata dessas questões. Trata de outras, mais precisamente do direito e do prazer de ser quem se é, de dizer o que se deve e quer dizer. Fui mais filosófico, eu acho.

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  3. Por Stella Junia

    "Ser quem se é" - a maior das aventuras, num mundo de modelos pré estabelecidos.

    É nadar rio acima, solitariamente..
    Vez outra, encontramos outro peixe maluco subindo a correnteza também - essa é uma hora muito boa: a gente não se sente nem tão só, nem tão maluco.

    E como é bom ter companhia... não precisa ser multidão, não gosto nem confio nelas.. mas um amigo maluco, subindo rio àcima , correndo os mesmos riscos e desfrutando a alegria da experiência de ser único, é maravilhoso.

    As palavras nos revelam... elas nos credenciam...é uma arte saber usá-las...mas, por maior a habilidade em usá-las, não se garante que sejam entendidas como gostaríamos... do emissor até o receptor, são tantas as variáveis, os ruídos, os pre- conceitos que a contaminam....

    Uma felicidade é quando a gente se desnuda usando palavras, e o outro consegue ver a nossa anatomia, admirar a nossa silhueta, tal como ela é.

    E se não consegue ver e entender,pode aceita-la com generosidade, respeito e amor, e apreciar a maravilha do novo.

    Stella Junia

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  4. mas é preciso muita coragem não?!
    (Sê forte e corajoso"?!)
    De fato, a autonomia para o pensar, para ser, traz riscos, é viver no risco, assim também produz medo, medo tal que impele, que impede muitos atos, são como pedras no meio do caminho.

    Eu ainda quero ter esta coragem, adimiro quem a tem.
    Mas as consequências também são duras, lembro-me de quando disse do frio cortante na cara, pensar em passar frio com uma companhia é mais confortante, sozinha parece uma escolha imprudente.
    Antes, porém, é preciso responder: Quem sou eu?! rsrs e por aí já gastei 20 anos, não passei muito desta pergunta não.
    Para ser quem se é, é preciso se conhecer
    "Conhecer-te a ti mesmo"

    Legal,
    não sei se compreendi o que disse, menos ainda se o que eu escrevi ficou compreensível,
    mas gostei deste seu lado filosófico :)

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  5. Concordo com Locke quando diz que todas as pessoas ao nascer o fazem sem saber de absolutamente nada, sem impressões nenhumas, sem conhecimento algum. Então todo o processo do conhecer, do saber e do agir é aprendido pela experiência, pela tentativa e erro, e o homem nasce como se fosse uma "folha em branco". Digamos que eu vá viver parte dessa experiência, por que não sou mais uma folha em branco, já escrevi o suficiente para me arrepender de muito e me pergunto a causa de me envolver novamente com a escrita, uma nova escrita, com uma nova motivação, e um novo coração. Alguns não andarão mais ao meu lado como antes, nem receberei carinho de outros que o faziam, nem terei a quem amar com toda intensidade se não O que me criou. Estou tentando ser quem sou. Como fazer isso sem algum sacrifício?

    Parabéns prof Oswaldo e demais que comentaram...

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  6. Meu amigo,

    A última vez que alguém disse o que pensa sem medo ou foi sozinho em frente ao espelho ou foi crucificado.

    Filosofia é bom, mas será que funciona 100%?
    Enquanto isso nossa "mãe gentil" deixa seu "filhos" sem o "pão de cada dia". E eles ainda têm que aturar "as mulas de plantão" que pensão ser "profetas".

    Será que é possível “dizer o que se pensa, na sinceridade das palavras honestas”?
    Eu, sinceramente, ainda mais medo do que não é dito do que da “falsa sensação de estar protegido” por estar armado.

    A pergunta é boa, no entanto. Como ser quem se é?
    Um bom começo, penso eu, seria deixar de ser quem não se é. "Mas o mercenário, e o que não é pastor, de quem não são as ovelhas, vê vir o lobo, e deixa as ovelhas, e foge; e o lobo as arrebata e dispersa as ovelhas. Ora, o mercenário foge, porque é mercenário, e não tem cuidado das ovelhas". (João 10:12-13).

    E eu? eu tenho medo dessa gente!

    Com respeito e carinho,

    Leonardo Martins.

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  7. Leo, você particulariza, numa direção, o que eu disse. Também nessa direção é-se necessário ser quem se é. Mas ser quem se é não significa ter um megafone no cérebro, revelando todos os seus pensamentos, pondo dedo na cara de todo mundo, transformar-se em Dom Quixote. Será? A autenticidade não é a mesma coisa que a vaidade de escancarar na cara de todo mundo os seus intestinos. Ela é a franqueza de revelar-se, sob a demanda, nos espaços para isso constituídos. Mas há que se preservar, sempre. Há que se ter os escudos, naturalmente.

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  8. Verli, sacrifícios sempre haverá: ou de si mesmo, negando-se, ou de "próximos", que se afastam, por muitas razões. Há que se medir quais sacrifícios estamos dispostos a fazer. Mas apenas a filosofia da proximidade a qualquer preço pode evitá-los.

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  9. Obrigado por sua inspiração.
    Estou compartilhando, via e-mail, o texto com membros e agregados da igreja a qual sirvo. Gostaria muito de repercutí-lo e também tê-lo "arquivado" em meu blog, como uma perola preciosa.
    Aproveito para dizer que, como pastor batista da periferia político-geográfica do centro de poder adminitrativo da CBB, não acredito na recuperação financeira do STBSB a não ser que haja injeção de capital oriunda de fontes externas ou da transformação de patrimonio em dinheiro. Entretanto, a boa impressão que tenho de você e Davidson me anima a continuar acreditando nas palavras do profeta: "Clama a mim, e responder-te-ei, e anunciar-te-ei coisas grandes e firmes que não sabes." (Jer. 33.3).
    O amanhã não nos pertence, mas é bom saber que confiamos em quem ele pertence e procuramos agir de maneira coerente com essa confiança.

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  10. Tive o privilégio de conhecer a Igreja Batista da Graça, em Salvador. E o pastor Edvar, que é o primeiro pastor que chamo de meu, ainda que eu não seja nem batista nem de igreja alguma.
    E recebi, dele, por email, o link para este teu texto, que funcionou como um pequeno milagre: um oráculo a confirmar meus sentimentos mais íntimos, que me exigem desarmar-me, ficar nua primeiro diante de mim mesma, e não temer os riscos!
    O maior risco é viver uma vida sem verdade!

    Muito grata, de coração!

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  11. Sem nenhum caso específico como alvo, mas apenas aproveitando seu momento filosófico para fazer coro às muitas postagens aqui, desta vez minha favorita foi "A autenticidade não é a mesma coisa que a vaidade de escancarar na cara de todo mundo os seus intestinos. Ela é a franqueza de revelar-se, sob a demanda, nos espaços para isso constituídos. Mas há que se preservar, sempre".

    Ultimamente estamos lidando, e bastante, com as vísceras expostas indevidamente por aqueles menos prudentes. Isso tem nos ensinado que "intestinos" a céu aberto nunca cheiram bem e acabam afetando muita gente, mais gente do que seria necessário afetar.

    Percebo que muitos de nós ainda confundimos ser íntegro com jogar porcaria no ventilador. Sim, concordo com vc, há que se saber como se preservar, sempre. Preservação é sempre, de alguma forma, ainda que tida como ingênua, um jeito de proteger. No máximo àqueles que amamos, que queremos bem, no mínimo, a nós mesmos.

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  12. Prof Osvaldo, seu texto é belo e seus comentários ainda melhor. "Mas ser quem se é não significa ter um megafone no cérebro, revelando todos os seus pensamentos, pondo dedo na cara de todo mundo..." Parabéns!

    Lilia, não poderia deixar de comentar seu comentário. Belíssimo!

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  13. Enfim um post com mais comentários, merecidos digo de passagem. Sinto-me lisonjeado por ter iniciado, mesmo de forma enviesada, as observações desse teste sobremodo amplo.

    Novamente aqui lidamos comobservações amplas demais, escusas demais, e nas palavras sempre há mais do que o que realmente está dito. Vou por partes, pois como esquartejo o texto há boa observações e observações "não boas".

    Concordo com o fato de que ser quem se é não significa ter um megafone no cérebro.E perfeito, o megafone corta como a espada do mais voraz samurai, portanto ela deve ser domada, comedida, mas, ao ser usada, ser fatal.

    Porém, infelizmente, há muita gente (e é com pesar analisar isso em nossas "trincheiras") que no mínimo são de caráter duvidoso. Cito da seguinte forma...
    Concordam com a cor lilás, apoiam a cor lilás, não de forma aberta e coercitiva, mas de forma velada e sorrateira, porém, quando o lilás sofre um duro golpe e o verde toma o poder, diz com todos os deuses, pantuás e oráculos possiveis que nasceu, cresceu e é verde até os intestinos.

    Vejo que minha visão é por demais romântica, mas ainda prefiro um megafone sem controle que um escuso mudo a rondar minha parentela. Daquele que assume sua postura e às vezes "expõe os próprios intestinos" há as fraldas geriátricas que se dê jeito, mas se for um cancer sorrateiro que assola o intestino, defeca-se por dentro e percebe-se o mal quando se beira a morte.

    Ps. desculpe as analogias biológicas, mas nesses casos é a minha tábua de salvação. rs...

    Assim, não confundam recato e bom-senso com leviandade, seria desastroso. Enfim, somos quem somos.

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  14. Olá, "di novu", Thiago. Vou ao ponto: refiro-me ao sujeito que, diante da necessidade, não se cala, e que tem a sabedoria para discernir quando é a necessidade que fala, quando é a própria vaidade. O espetáculo mais deprimente é o do "profeta" vaidoso, que cuida ser veículo de Deus para a tudo e todos denunciar, porque esse é seu prazer e gozo. Diferente é a atitude de, diante da necessidade imperiosa de não se calar, não se cala. O dilema, meu amigo, é como saber distinguir. Quando se trata de necessidade ética, quando se trata de pura vaidade.

    No fundo, minha referência original era, apenas, à coragem de dizer as coisas que pensa: e pensava eu em Teologia, originalmente. O seu tom levou a conversa para as questões políticas. No campo teórico, não me calo. Digo quanto me vem à cabeça, e o preço que isso custa não me custa tanto pagá-lo.

    Mas, no campo político, a coisa não é tão simples. É necessário ter maleabilidade nesse campo, saber curvar-se como as gramínias. Às vezes, carvalhos tombam no meio de tempestades. Mas, na manhã seguinte, o trigo festeja... É outra difícil questão: quando enfrentar, quando contornar, quando negociar. Difícil. Não há manual. E retóricas não resolvem a questão.

    Diria assim: meu pathos exige nudez conceitual, teórica, quase que inegociáveis. Mas eu saberia agir mais prudentemente em questões políticas, principalmente em posições estratégicas. Não se entra numa briga que não se pode vencer, e, se você entra, sabendo que vai perder, talvez se trate, afinal, da vaidade do martírio, que gera prazer à alma, que goza gozos febris, mas que quase nada acrescenta à causa. E, de novo, eis a dificuldade: quando é momento de martírio, quando é momento de negociar. Você sabe? Falo com um Deus, então... A mim só me resta a minha consciência... ah, sim, e mulher e filhos... E eles contam, amigo: ao fim e ao cabo, é a única coisa que realmente conta.

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  15. Talvez seja essa a vantagem e a desvantagem de Zaratustra. A solidão. Liberdade e solidão, ou prisão e uma ótima companhia. AH, resposta fácil. Com carol, prisão na certa. Mas lá dentro, no fundo do peito, há grito, desespero. Só resta a oração para que não me perguntem nada, afinal, se perguntaram o vulcão explode e tudo vem à tona.

    Você com Bel, eu com Carol, assim há felicidade, saciedade, nas prisões das posições políticas.

    Mas ainda sim, na política, prefiro um cão raivoso, que ladra a esmo e sei de onde será desferido seu ataque. Pois o lobo, sorrateiro, ataca de forma vil, e contra ele não há defesa...

    Fico com os dizeres de minha avozinha e sua filosofia da "roça"... "nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno"...

    Parcimônia sempre...

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